O ano era 2014, meu namorado morria por complicações em decorrência da AIDS. Para mim, a o resultado positivo para o vírus do HIV e o desafio de seguir com tantas dúvidas e medos do julgamento social, receio de revelar meu status de HIV a outras pessoas, incluindo parceiros, familiares e amigos, preocupações sobre a própria saúde a longo prazo.
Procurei me rodear de boas informações com bons profissionais e com o passar do tempo fui aprendendo a digerir e entender que muita coisa evoluiu dos tempos do Boom da AIDS para hoje em dia. Comecei meu tratamento e em muito breve fiquei indetectável, tinha o vírus, mas ele não evoluía no meu corpo, dessa maneira nem transmitir mais era possível. Conheci o Rodrigo meu companheiro de vida, no trabalho, começamos a nos relacionar, e nos apaixonamos. O amor e o relacionamento envolvem confiança, compreensão e apoio mútuo.
Ao compartilhar minha condição de saúde com meu parceiro, ele foi compreensível; falar sobre o HIV gera ansiedade, mas sem dúvida foi e é fundamental transmitir informações precisas de um lado e do outro. Além disso, é importante que a gente receba educação sobre o HIV, incluindo a prevenção, o tratamento e o apoio disponível, seja na rede de amigos, com parentes ou com quem a gente se sentir mais confortável. Já o aconselhamento médico e psicológico, é a ajuda que precisamos para enfrentar os desafios associados à revelação do status sorológico, com compaixão, consenso, refúgio e acolhida!!!
Foi quando decidimos aumentar a família e entender como isso seria possível. Como uma mulher HIV+ pode gerar na sua barriga um bebê negativo?
E não tive um, foram DUAS CRIANÇAS!!! Com Tratamento Antirretroviral, mulheres grávidas vivendo com HIV devem continuar com a terapia e uma carga viral indetectável reduz significativamente o risco de transmissão do HIV para o bebê durante a gravidez, cuidados pré-natais, são cruciais como eu fiz para monitorar a carga viral e o estado imunológico (contagem de CD4); já o parto, (vaginal ou cesariana) depende da carga viral da mãe, no meu caso foi cesariana por uma escolha minha e do meu médico; e amamentação, recomenda-se que mulheres com HIV não amamentem para eliminar qualquer risco de transmissão; como prevenção da transmissão ao bebê, ele geralmente recebe um xaropinho após o nascimento para reduzir o risco de infecção e testes de HIV são realizados no bebê.
Com todos os cuidados, há 7 anos chegava meu pequeno grande milagre, João, e 1 ano depois nós éramos 4 com a chegada da Olívia. E apesar de sabermos que com todos os protocolos é possível gerar uma criança negativa, não tem como não ressaltar que sem dúvida é um grande desafio.
Agradável, apavorante, intranquilo, terno, mas um imenso desafio. Porque além de todos os estigmas, preconceitos e medos que já assolam as pessoas que vivem com HIV, aqui eles são intensificados para além das inseguranças que a maternidade já traz: o pensar em passar algo para o bebê, o medo de algum familiar que não sabe, saber, a culpa pelos remédios, a desculpa para eles baixinho por não poder amamentar, culpa!!!
E na mesma proporção a coragem, coragem de escolher ser mãe, de exculpar o óbvio, de tomar as rédeas do nosso futuro e da nossa vida, e sermos gigantes! De sermos felizes por fazermos partes dos avanços ao longo desses anos todos que nos permitem ter dentro de nós batendo 2 corações, que nos faz resignar que não amamentar, é a nossa maior prova de amor. Porque não podemos escolher ter HIV, mas com certeza podemos decidir viver, escolher se tratar e com isso seguir. Conscientizando sobre o tema, promovendo a saúde e celebrando a jornada, porque enquanto a gente tenta ensinar sobre a vida, são eles, nossas criaturas que nos ensinam a viver.
E viva o Amor!!!

Thais com o marido Rodrigo e os filhos João e Olivia
Este artigo relata uma experiência individual. É importante notar que sintomas e experiências podem variar e este relato pode não ser representativo para todos os pacientes. Se você está considerando a gravidez e vive com HIV, é essencial buscar planejamento adequado e acompanhamento de um médico. Cada situação é única e deve ser individualizada pelo profissional de saúde para garantir a segurança e bem-estar da mãe e do bebê.
Material destinado ao público em geral. Consulte seu médico
NP-BR-HVX-WCNT-24000X – Agosto/24
- National Institute of Allergy and Infectious Disease. 10 Things to know about HIV suppression. Disponível em:<https://www.niaid.nih.gov/diseases-conditions/10-things-know-about-hiv- suppression#:~:text=Taking%20antiretroviral%20therapy%20as%20prescribed,their%20first%20undetectable%20test%20result>. Acesso em: março 2024.
- HIV.gov. Viral Suppression and an Undetectable viral load, 2023. Disponível em: <https://www.hiv.gov/hiv-basics/staying-in-hiv-care/hiv-treatment/viral-suppression>. Acesso em: março 2024.
- Ministério da Saúde. Prevenção a Transmissão Vertical, 2024. Disponível em: <https://www.gov.br/aids/pt-br/assuntos/prevencao-combinada/prevencao-a-transmissao-vertical#:~:text=O%20HIV%20tamb%C3%A9m%20pode%20ser,o%20nascimento%20saud%C3%A1vel%20do%20beb%C3%AA.>. Acesso em: julho 2024.
- Alvarenga, WA. et al. Mães vivendo com HIV: a substituição do aleitamento por fórmula láctea infantil. Rev Bras Enferm. 2019; 72(5):1217-24.